O Sindicato Rural de Corumbá, por meio do presidente Stefano Santa Lucci Rettore, participou da Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima ao longo de 500 km cortando o Pantanal para realizar uma jornada de escuta de pantaneiras e pantaneiros e trabalhar com a montagem de um documento com propostas para fortalecer a pecuária pantaneira e sua cultura.
Esse trabalho desenvolvido ao longo de quatro dias passou por rios, campos alagados e caminhou lado a lado de biodiversidade reconhecida no mundo inteiro, que há mais de 300 anos vive em coexistência com a pecuária e as famílias que atuam na lida das fazendas pantaneiras.
No Pantanal, há famílias que atravessaram gerações vivendo da pecuária, preservando tradições, construindo comunidades e aprendendo que produzir alimento exige, antes de tudo, respeito ao ritmo da natureza. É essa história, muitas vezes pouco conhecida fora do bioma, que continua moldando uma das mais tradicionais pecuárias do Brasil.
Foi para ouvir essas famílias e compreender os desafios de quem vive no Pantanal que a Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima cruzou estradas, fazendas e comunidades da região durante quatro dias, neste mês de julho de 2026. Promovida pelo Instituto Pecuária Tropical pelo Clima, a comitiva, parte do projeto Vozes da Pecuária, reuniu produtores rurais pantaneiros, pesquisadores, profissionais do agronegócio e lideranças locais em uma grande jornada de escuta, cujo objetivo é catalisar as demandas em propostas da pecuária brasileira para entregar aos candidatos das próximas eleições e demais entidades envolvidas.
"A pecuária está no Pantanal há mais de 300 anos e as pantaneiras e pantaneiros têm trabalhado de forma a entender e respeitar esse território. Produzir com respeito aos ciclos do Pantanal, estar muito comprometido em garantir um produto que é único no mundo, pensando também no bem estar animal, na saúde para ser fornecida uma proteína animal que vai alimentar famílias do Brasil e do mundo. Esse comprometimento vem de séculos, mas talvez por ser uma rotina do Pantanal, nem sempre é falado e destacado. Acrescenta-se que é uma região remota, os acessos são difíceis. Essa Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima vem ajudar a expor esse compromisso pantaneiro com a natureza, a produção e o bem-estar. A gente percorreu um recorte de Pantanal de 500 km, em meio a fazendas, praticamente só em estradas de terra e isso só em dois municípios. Com essa escuta, damos voz e protagonismo a quem está trabalhando na lida e agora é uma etapa de ecoar essa voz, para reforçar o valor de trabalhadoras e trabalhadores desse nosso Pantanal, de forma a gerar riqueza, fomentar o desenvolvimento e geração de renda para dentro do território. É bom acrescentar que todo esse trabalho vem sendo feito nos 5 biomas e executado por pecuaristas. Esse diagnóstico que estamos elaborando vai ser uma carta aberta para a sociedade", explicou Stefano Santa Lucci Rettore, presidente do Sindicato Rural de Corumbá.
As escutas foram feitas por meio dos embaixadores territoriais e convidados do Vozes da Pecuária, capitaneados pelos pecuaristas Leonardo Leite Barros, Stefano Rettore e José Feliciano Lima Baptista. A primeira parada aconteceu no Sindicato Rural de Rio Negro, onde produtores rurais, comerciantes e técnicos participaram da primeira roda de conversa. O encontro marcou o início da jornada, colocando no centro das discussões quem conhece, na prática, os desafios e as oportunidades da produção pantaneira.
Ao longo da conversa, temas debatidos foram:
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como legislação ambiental,
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segurança jurídica, e
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desafios técnicos da pecuária regional.
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“Mais do que reunir demandas, o objetivo foi construir um espaço de diálogo seguro e capaz de transformar experiências em propostas. Ouvir antes de propor, compreender antes de construir soluções”, defendeu José Feliciano Lima Batista, embaixador da região Pantanal.
Participante local da roda de conversa e de uma família centenária de produtores rurais, René Miranda Alves, presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, ressaltou que desde cedo aprendeu a conviver em harmonia com o meio ambiente, conciliando conservação, sustentabilidade do negócio, valorização dos colaboradores e sucessão familiar.
Ele reconhece que é fundamental que a voz dos pantaneiros chegue aos grandes centros “para que a sociedade compreenda que produzimos em sintonia com a natureza, preservamos nossas tradições, investimos na qualificação dos nossos colaboradores e buscamos oferecer melhores condições de trabalho."
Segunda parada
De Rio Negro, a comitiva seguiu para o município de Aquidauana com parada na Pousada Baía das Pedras, na Nhecolândia. Esse é um dos destinos mais tradicionais do turismo pantaneiro. Foi ali que aconteceu um dos momentos mais marcantes da viagem.
A roda de conversa reuniu produtores, vizinhos da pousada, profissionais ligados à atividade pecuária, amigos dos proprietários, como também representantes da sociedade. Eram turistas que estavam conhecendo o Pantanal e se juntaram ao grupo. “O encontro aproximou dois universos que raramente dialogam”, analisou Baptista, citando que participavam os “que escolheram o bioma como destino turístico e quem construiu sua vida naquele território”.
Descendente de uma das famílias pioneiras da região, proprietária da pousada e produtora rural, Rita Maria Coelho Lima e Jurgielewicz explicou que a pecuária sempre foi a principal atividade da propriedade e que a convivência entre o homem pantaneiro, o gado e a fauna silvestre faz parte da rotina de quem vive no bioma.
"O peão sabe que é guardião do Pantanal. É ele quem convive diariamente com esse ambiente e entende que produzir aqui é cuidar da natureza. O gado ocupa o mesmo espaço que antas, capivaras, cervos, jacarés e tantas outras espécies. Essa convivência acontece naturalmente e faz parte da nossa cultura”, destacou.
Para os turistas, foi a oportunidade de conhecer os bastidores do Pantanal, algo além das paisagens e da biodiversidade. Pela primeira vez, os turistas puderam ouvir as histórias, os desafios e os sentimentos de famílias que vivem da pecuária há gerações. Para os produtores, foi uma oportunidade rara de contar como é feita a conservação por quem a vive todos os dias.
“Foi uma troca genuína de experiências e aprendizados, um exemplo do que pode ser adotado como uma política pública educativa”, analisa Baptista.
A voz da experiência
A terceira parada levou a comitiva à Fazenda Baía Negra, em Aquidauana, onde o grupo foi recebido pelo produtor rural Pedro Manoel Corrêa da Costa, integrante de uma tradicional família pantaneira e presidente da Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO).
Ali aconteceu uma roda de conversa mais intimista e rica em conteúdo. Pedro apresentou os desafios específicos da região, onde as características ambientais exigem conhecimento, adaptação e planejamento permanente. “A produção de carne orgânica esteve entre os principais assuntos debatidos, assim como as particularidades da pecuária em áreas alagáveis e os impactos das normas ambientais sobre quem produz”, contou o integrante do Vozes da Pecuária Leonardo Leite Barros.
O encontro reforçou que o conhecimento construído pelas famílias pantaneiras ao longo das gerações deveria ser parte fundamental da construção de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável do bioma.
“Cada conversa confirma que a construção de uma pecuária mais sustentável começa pela escuta qualificada. O Pantanal reúne características ambientais, sociais e produtivas únicas, e isso exige políticas construídas a partir das evidências do território”, resumiu Leonardo Leite Barros.
A quarta parada foi na Fazenda Taboco, em Aquidauana, administrada por Gabriel Ribeiro, representante da quinta geração da família na propriedade rural, fundada em 1840. A fazenda também guarda parte da história do próprio Pantanal, mantendo ligação com episódios da Guerra do Paraguai, que marcaram a região.
Na Taboco, a comitiva viu de mãos dadas a tradição e inovação. Além de investir em tecnologia e manejo sustentável, a fazenda mantém uma estrutura voltada ao bem-estar dos colaboradores e de suas famílias, incluindo uma escola que atende aproximadamente 60 crianças, com transporte escolar, permitindo que elas estudem sem precisar deixar a região.
A conversa também destacou a sucessão familiar e a permanência das novas gerações. Além de, valorizar a cultura regional e garantir a continuidade do modo de vida no Pantanal, com a possibilidade de rever critérios relacionados ao trabalho de aprendizes, permitindo que os jovens possam ser preparados, de forma adequada e segura, para a realidade do território.
Para Ribeiro, a formação acadêmica é importante aliada às lições que o Pantanal ensina. "Minha família acreditou na educação. Meu avô estudou na Universidade de Viçosa, meus pais e eu seguimos o mesmo caminho. Mas o Pantanal tem características únicas”, afirmou. Ele lembra que não existe receita pronta para se produzir no bioma, especialmente, pela realidade do ciclo de cheias e da seca, além das limitações de acesso, de energia, de mão de obra e de infraestrutura. “É um ambiente desafiador, mas extremamente gratificante”, celebrou.
A visita à Fazenda Taboco mostrou que o futuro da pecuária pantaneira passa justamente por esse equilíbrio: conservar um legado construído por gerações, investir em tecnologia, valorizar as pessoas que vivem no campo e compreender que cada solução precisa respeitar as características únicas do Pantanal.
Pantanal Tech
A jornada foi concluída com a chegada a Pantanal Tech, em Aquidauana, logo pela manhã.
No evento, os principais aprendizados da expedição foram compartilhados em uma roda de conversa com todos os embaixadores e produtores do Estado:
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Stefano Rettore,
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José Feliciano Lima Baptista,
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Leonardo Leite Barros,
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a facilitadora da Pecuária Tropical pelo Clima, Renata Miranda,
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o pesquisador da Embrapa Pantanal Urbano Gomes Pinto de Abreu, e
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Silvio Henrique Ribeiro Balduino, assessor da Reitoria na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).
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Eles ainda tiveram a oportunidade de fazer a primeira apresentação do movimento ao governador do Estado, Eduardo Riedel.
“O Pantanal Tech cumpriu um papel fundamental de conectar o movimento ao setor produtivo, a academia, a indústria local e o conhecimento dos povos originários”, afirmou o pecuarista pantaneiro Leonardo Barros.
Para Barros, a consolidação de uma pecuária tropical sustentável depende diretamente desse esforço conjunto, focado em ouvir a comunidade pantaneira para compreender as particularidades do bioma e transformar ciência e tecnologia em respostas práticas para o clima. “O produtor rural entende que será o principal impactado pelas mudanças no clima, caso ele não proteja o ecossistema dentro de sua propriedade. Ele deve liderar as iniciativas de sustentabilidade, finalizou
Instituto Pecuária Tropical pelo Clima
A Pecuária Tropical pelo Clima se formaliza como uma organização criada para posicionar a pecuária brasileira como parte da solução climática, valorizando sua capacidade produtiva, organização setorial e práticas sustentáveis.
Liderada por pecuaristas, a iniciativa representa a evolução de um movimento que integra, de forma inédita, diferentes regiões, biomas e realidades da pecuária no Brasil, colocando o produtor no centro da discussão sobre produção de alimentos, conservação e desenvolvimento econômico. Entre os seus projetos está o Vozes da Pecuária que tem por objetivo, neste ano, antes das eleições, entregar um documento com as propostas da pecuária catalisadas em 10 territórios.
O movimento conta com o apoio da organização Terra Adorada, ex-Morada Comum, parte da Rede Global Our Common Home. A iniciativa conta também com a parceria da Unapec, União Nacional da Pecuária.
Mais informações:www.pecuariapeloclima.org
